Por Vinicius Martins e Andrei Teixeira

Uma prostituta e um cafetão ligados intimamente ao sexo e um homossexual que controla seu próprio destino. Os três: negros, miseráveis e à margem da sociedade, procurando sobreviver à crueldade do mundo.

Esse é o cenário que serve de bate para a peça “Navalha na Carne Negra”, da Companhia Munguzá de Teatro, que ficou em cartaz no Centro Cultural São Paulo (CCSP) até domingo e agora segue para o Teatro Container, também na capital paulista.

Na peça, a personagem Neusa Sueli é negra, prostituta e submissa aos caprichos do cafetão Vado, que apenas quer sexo e dinheiro. Ambos vivem numa pensão e Neusa deve deixar todos os dias o dinheiro na carteira de Vado, porém, um dia o dinheiro é deixado no criado-mudo e, do nada, ele some.

Neusa é acusada de roubo, mas quem rouba é Veludo, um camareiro gay que também tem seus clientes.

Porém, Navalha na Carne Negra fala bem mais do que roubo. A peça de Plínio Marcos, que no ano passado completou 50 anos e é tida como um clássico do “teatro marginal”, coloca em xeque onde está a sociedade marginalizada. Afinal, “eu sou gente?”, questiona Neusa Sueli, aos prantos e berros.

Sexo por dinheiro, agressões físicas e verbais, machismo e homofobia podem chocar qualquer espectador, mas esse é apenas o reflexo na sociedade brasileira.

Machismo e homofobia elevam a reflexão sobre a nossa sociedade (Foto: Divulgação)

Se muitos a consideram uma obra “datada” sob alguns aspectos, essa nova montagem pretende friccionar Navalha na carne contra a própria pele – a realidade, a experiência e a pesquisa de uma atriz, dois atores e um diretor negros, que vêm construindo suas trajetórias através de uma proposta estética que articule a presença preta na cena e na sociedade contemporâneas: José Fernando Peixoto de Azevedo, dramaturgo, diretor teatral e professor da Escola de Arte Dramática da USP, foi diretor e fundador do Teatro de Narradores (1997-2017) e colaborador do grupos Os Crespos, além de dramaturgo do espetáculo “Isto é um negro?”; Lucelia Sergio, da Cia Os Crespos (SP); Raphael Garcia, do Coletivo Negro (SP); e Rodrigo dos Santos, da Cia dos Comuns (RJ), grupos que tem extensa pesquisa teatral sobre o tema.

“Navalha na Carne Negra” traz os esquecidos pela sociedade (Foto: Divulgação)

A produção conta com efeitos sonoros e um elemento criativo de execução: uma assistente com câmera nas mãos que focaliza cada detalha do rosto das personagens. A gravação em tempo real complementa as cenas de palco e é exibida em 2 telões, capturando todas as emoções vividas por cada um.

Não caindo na moral, “Navalha na Carne Negra” é bem objetiva para mostrar o lado mais egoísta e fraco do ser humano, trazendo o machismo e o prazer sexual como correntes que impedem que as personagens se tornarem donas do próprio destino.

E sem ser determinista nem vitimista, ilustra o drama do cotidiano das minorias da sociedade, que são estruturalmente excluídas da economia e do mundo do trabalho.

Um convite à reflexão.

Serviço
Teatro Container (R. dos Gusmões, 43 – Santa Ifigênia)
Temporada: De 27/11 à 05/12
Datas e Horário: Terça e quarta, às 20h
Ingresso: R$ 30

O Claro e Criativo assistiu à peça a convite da assessoria de imprensa (Canal Aberto).

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