Por Andrei Teixeira

Desde que o dólar ultrapassou a barreira dos três reais em 2015, uma insatisfação crescente de parte da população tem me chamado atenção. É importante lembrar que esse sentimento pertence a um grupo específico de pessoas, as que costumavam/costumam compravam produtos vindos de fora do país, como eletrônicos e roupas de marca.

No primeiro momento, a maior parte da população brasileira, à primeira vista, ficou imune à elevação da taxa de câmbio, que chegou a superar os R$4,00 duas vezes [ambas no período de eleição pra presidente]. Mas é realidade que até mesmo a farinha do café do brasileiro é cotado em dólar e isso tende a deixar o supermercado mais caro.

No momento atual, a taxa de R$3,70 tem sido um limite prático pra que os supermercados alteram pra mais ou pra menos o aumento do preço dos derivados de importados, ou seja, tudo que é derivado da farinha, do plástico [petróleo] e dos metais [enlatados].

Mas só vamos saber o que vai acontecer com o câmbio após as eleições. Nessas semanas de 1º turno, o aumento de Bolsonaro tem deixado os mercados mais tranquilos, porque ele é pró-mercado e isso ajuda a dar flexibilidade quanto a reformar econômicas para o ano que vem.

Por outro lado, nada impede que se Haddad levar a Presidência, ele também não possa fazer um novo pacto de estabilização e reformas, mas antes disso, a tendência é um dólar mais alto, quem sabe voltando a casa dos R$4,00.

A gente vai se acostumar com um dólar mais alto sim…

Um dos motivos mais básicos para a desvalorização da moeda é a própria inflação.

Desde o lançamento do Real, a inflação acumulada é de aproximadamente 450%. Isso significa que precisamos ter R$550 de hoje para podermos obter o que comprávamos com R$100 em 1994. O dólar, por sua vez, perdeu apenas 70% do seu poder de compra, ou seja, se antes precisávamos de US$100, hoje precisamos de US$170.

No lançamento da moeda, a nossa taxa de câmbio era 1:1 (um real era igual a um dólar), então há vinte anos atrás R$100 eram iguais a US$100.

Mas os tempos são outros em 2018, quando R$550 valem US$170.

Isso nos dá uma taxa média de então, R$3,23 valem uma verdinha. Essa seria a “taxa natural de câmbio” e estamos bem acima dela.

O que explica a diferença atual é a incerteza em relação às reformas econômicas, bem como os problemas de coordenação e polarização que temos na política, iguais causadores de incerteza por parte dos investidores.

O patamar dos três e pouco vai ficar por aí por um bom tempo, podendo beliscar a faixa dos quatro [Foto: Divulgação]
A tendência é de alta, mas baixas também acontecem

Bom, é impossível que a taxa de câmbio sempre fique na taxa natural para qualquer moeda, pois muitas coisas impactam uma economia.

Desde 2015, a instabilidade política e o ajuste econômico têm trazido um ambiente de incertezas pro pessoal que coloca dólares no Brasil, então muitos deles preferiram não se aventurar em terras tropicais. Logo, se a quantidade de dólares diminui, ele vira um artigo mais escasso, o que, pela lei da oferta e da demanda, deixa-o com um preço maior.

O patamar dos três e pouco vai ficar por aí por um bom tempo, podendo beliscar a faixa dos quatro. Por enquanto, bem todos conseguem comprar dólares para viajar ou especular, e com a nossa inflação maior que a dos EUA e a polarização batendo de novo nas portas das eleições, a gente tem uma verdadeira ópera acontecendo, de fundo bem dramático.

Mas não se assuste. Os sistemas políticos, econômicos e sociais sempre encontram um novo ponto de equilíbrio. Inclusive, os salários se reequilibram a um câmbio mais elevado.

Mesmo a chiadeira continuando, ela é menor do que há 4 anos. O Brasil de hoje é muito mais complexo e desenvolvido do que aquele Brasil dos anos 1980, onde os cruzeiros e os cruzados dançavam a torto e a direito nas costas do povo. E é por conta daquela confusão que o economista e professor André Arruda Vilella escreveu um texto intitulado “A ópera dos três cruzados”, título este que me dá inspiração pra escrever pra vocês.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.