Por Andrei Teixeira

Há quase um ano, a equipe do Claro e Criativo escreveu uma matéria sobre um discurso da primeira-ministra alemã, Ângela Merkel, e de seu ministro da Economia, Sigmar Gabriel, em que cada um comentava o que poderia significar a vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas.

Naquela época, alguns candidatos do partido republicano estavam saindo da campanha, como Ben Carson e Michael Bloomberg, o que abriu mais espaço para Trump, que precisaria ainda derrotar adversários fortes como Ted Cruz ou Jeb Bush.

Mesmo vencendo as prévias de seu partido, precisaria ainda vencer a candidata do outro partido para tornar-se presidente. E a campanha foi bastante populista de ambos os lados. A cada semana, saía uma nova polêmica envolvendo Donald Trump, seja porque debochou de deficientes físicos e mentais, seja porque vazou um vídeo onde ele falava que mulheres eram objetos, seja porque foi ameaçado que ele tinha relações com a Rússia e por aí vai…

Porém, o mais preocupante não era sua vida pessoal, senão o que ele faria na vida pública: muro para conter imigrantes, combate a tudo aquilo que era Islâmico, protecionismo, guerra comercial, saída da OTAN e por aí vai…

Essas propostas chamavam a atenção da mídia, que por seu turno, passou a quase demonizar a figura do republicano tudo a favor da democrata Hillary Clinton. E muito era dito sobre sua ameaça. Mas parte dessa dita “ameaça” é real, já que a eleição de um populista no maior país do mundo pode abrir margem para qualquer outro país menor (todos os demais) também elegerem populistas sem muito remorso ou constrangimento.

A ameaça Donald Trump

E políticas populistas, nós bem sabemos aqui no Brasil, são nocivas para o médio e longo prazo, pois embora tragam resultados positivas para a população, a política e a economia no curto prazo, deterioram as contas públicas de um país, distorcem preços e deixam a máquina mais ineficiente. Isso pode ocorre em várias partes do mundo.

decretos
Uma das cenas que mais esteve colada na figura de Trump nos noticiários internacionais foi a do presidente assinando uma série de decretos com a intenção de agilizar a maior parte das suas promessas para aproveitar a força das urnas, sem perder tanto apoio e para não ficar muito pressionado (Foto: Divulgação)

Mas nem tudo é ameaça

A realidade é que algumas medidas estão sendo tomadas mesmo por Trump: saída do Tratado do Transpacífico, muro no México e controle de fronteiras, porém muitos discursos foram abrandados.

Por exemplo, não é que haverá proibição total de imigrantes, mas existe uma indicação por parte de sua equipe de que haverá controles mais rígidos. As pessoas vão continuar entrando, seja de navio, de avião ou pelas vias terrestres pelo Canadá.

Boa parte da equipe de Trump não concorda 100% com as atitudes do presidente, que inclusive está assinando uma série de decretos nos primeiros dias de mandado porque está com a força das urnas contigo. No começo da semana foi levantada a questão da tortura, agora das cidades-santuário e ainda hoje deve sair a indicação para um novo ministro para a Suprema Corte, mas existe uma oposição muito clara dentro do próprio partido e do próprio gabinete (não é preciso ir muito longe, até as colinas democratas).

O senador republicano, John McCain, por exemplo, respeitado por todo o Congresso, sofreu tortura na Guerra do Vietnã e se opôs fortemente às propostas de Trump. Outros senadores que já falaram abertamente em oposição em temas como saúde e a indicação do secretário de Estado são justamente oponentes de campanha: Rand Paul, Marco Rubio e Lindsey Graham. Se os quatro senadores mudarem de lado, por exemplo, por conta do Obamacare, então a maioria do Senado deixa de estar ao lado do presidente.

Além disso, existem muitos deputados republicanos e independentes ao empresário. E sem falar que os timings de Trump e do rito constitucional das duas casas legislativas são complemente diferentes. Ou ele causa atrito e perde apoio, ou deverá reduzir a pressa para aprovar matérias, tirando sua força, para manter maioria.

Nas ruas, as pessoas estão se manifestando abertamente, seja em Nova Iorque, em Chicago, em Los Angeles… Em outros países, como na Austrália e na Nova Zelândia, grupos de mulheres estão dando apoio às norte-americanas que esta semana saíram as rus para protestar.

Outro exemplo foi o do presidente do México, Henrique Peña Nieto, que veio pela televisão dizer que nenhum mexicano pagará nem um centavo do muro que deverá ser levantado. Além disso, ele disse que lamenta a reprova “a decisão dos Estados Unidos de prosseguir com a construção de um muro que há anos, distante de nos unir, nos divide”. Ele também ordenou que os 50 consulados mexicanos nos EUA se tornem verdadeiras defensorias dos direitos humanos dos imigrantes. Nieto tinha viagem marcada para os EUA na terça-feira (31), mas desmarcou.

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Enrique Peña Nieto desmarcou seu encontro com Trump como força de protesto pelas várias ideias do presidente norte-americano: muro contra mexicanos, saída do Nafta, impostos sobre produtos mexicanos, dentre outras coisas (Foto: Divulgação)

Ontem, quem viajou foi a primeira ministra britânica, Thereza May, a fim de tratar de acordos comerciais e estreitar laços econômicos, mas ela “já disse que alguns dos comentários que Donald Trump fez sobre as mulheres são inaceitáveis. Quando me reunir com ele, a maior afirmação que posso fazer sobre o papel das mulheres é que estarei ali como uma mulher primeira-ministra. Sempre que haja algo que eu considere inaceitável, não terei receio de dizer isso mesmo”, sublinhou em declarações à BBC no meio dessa semana.

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No primeiro encontro entre as duas novas lideranças dos dois países, muitos elogios e concordância sobre OTAN, comércio bilateral e Rússia (Foto: Divulgação)

Pois é, a pior ameaça que poderia existir não está acontecendo, que é o do silêncio. As ruas não estão caladas, o Congresso norte-americano está alerta e líderes globais estão se manifestando. Sim, existe oposição, ela não é pequena e as coisas não estão caminhando necessariamente para um apocalipse. E nem comentamos sobre o papel da imprensa e dos artistas daquele país, que também estão ativos.

Talvez aqui no Brasil agente se assuste com o que passa, mas naquela sociedade, a liberdade de expressão e a força das instituições são tais que o que está acontecendo ali é um grande debate democrático junto com a ação de mecanismos limitadores para a ação indiscriminada do presidente.

Mas só o tempo dirá Casa Branca irá ceder às várias fontes de pressão.

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