As consequências geopolíticas do “Brexit” podem ser dramáticas. Para encará-las, esquerda deve lembrar que a UE nunca foi a “Europa dos Povos”

Da redação, baseado em Pepe Escobar*

Brexit derrotou conjunto espantoso do que Zygmunt Bauman definiu como as elites globais da modernidade líquida: a City de Londres, o FMI, Wall Street, o Fed, o Banco Central Europeu, grandes fundos de investimentos, todo o sistema interconectado do banking global.

Mais de 75% da City de Londres, como era de prever, votou “Fica”. Espantosos US$2,7 trilhões são negociados todos os dias na “milha quadrada”, que emprega quase 400 mil pessoas. E não é só a milha quadrada, porque a City agora inclui também Canary Wharf (quartel-general de vários grandes bancos) e Mayfair (local privilegiado de convivência dos fundos de investimento).

A City de Londres – indiscutível capital financeira da Europa – também administra espantoso US$1,65 trilhão de fundos de clientes, riqueza, literalmente, de todos os cantos do planeta. Desregulação sem limites combinada a influência sem igual sobre o sistema econômico global é mistura tóxica. Nessa direção, Brexit pode também ser interpretada como um voto contra a corrupção que invadiu a mais lucrativa indústria da Inglaterra.

As coisas mudarão. Dramaticamente. Não haverá mais um banco britânico pode prover serviços em toda a UE, a partir de sua sede no Reino Unido. Importante, também significa que um banco suíço ou norte-americano pode fazer a mesma coisa de uma filial estabelecida no Reino Unido, pela qual os bancos podem vender produtos a todos os 28 membros da UE, com acesso, assim, a uma economia integrada de US$19 trilhões. Devemos entrar em uma fase de negociação feroz, assim como o que acontece nos pregões denominados em euro, de Londres.

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O isolamento dos países e a crescente percepção de desigualdade entre os países coloca a União Europeia em risco. Esta charge dá um exemplo disto: no cartaz, lê-se “Inglaterra pode sair da UE”, enquanto que um representante da Grécia fala “… mas eu estou aqui!” (Foto: Divulgação)

Acompanhei o Brexit aqui de Hong Kong, a qual, há 19 anos, teve seu próprio Brexit, quando realmente deu bye bye ao Império Britânico para ligar-se à China. Pequim está preocupada, temendo que Brexit venha a se traduzir em fuga de capitais, “pressões de depreciação” sobre o iuane, e perturbações sobre a gestão da política monetária do Banco da China.

Brexit pode até afetar seriamente as relações China-UE, porque Pequim, em tese, pode vir a perder influência em Bruxelas, sem o apoio britânico. É crucial não esquecer que o Reino Unido apoiou um pacto de investimento entre China e UE e um estudo conjunto da viabilidade de um acordo de livre comércio China-UE.

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He Weiwen, codiretor do Centro de Estudos China-EUA-UE, sob a Associação Chinesa de Comércio Internacional, parte do Ministério do Comércio, disse claramente: “A União Europeia provavelmente adotará abordagem mais protecionista nos negócios com a China. Quanto a empresas chinesas que instalaram ‘quartéis-generais’ ou filiais no Reino Unido, é possível que já não gozem de acesso sem tarifas ao marcado europeu em geral, depois que o Reino Unido deixar a União Europeia.”

Mas também pode acabar por reverter em ganha-ganha para a China. Alemanha, França e Luxemburgo – todos competindo com Londres pelos negócios cotados em iuane – aumentarão sua competitividade. Chen Long, economista do Banco de Dongguan, está confiante de que “o continente europeu, especialmente países da Europa Central e Oriental, se envolverão mais ativamente nos programas chineses de “Um Cinturão, Uma Estrada” [também chamados “Novas Rotas da Seda” (NTs)].

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O Reino Unido, assim, viraria a nova Noruega? É possível. A Noruega deu-se muito bem depois de rejeitar a inclusão na União Europeia, em referendo de 1995. Será estrada longa e sinuosa, antes de o Artigo 50 ser invocado e lançar-se uma negociação de dois anos entre Reino Unido e União Europeia sobre território ainda não mapeado. Alistair Darling, ex-chanceler britânico do Exchequer, resumiu tudo: “Ninguém tem ideia do que signifique ‘Fora’”.

*Brasileiro, correspondente internacional desde 1985, morou em Paris, Los Angeles, Milão, Singapura, Bangkok e Hong Kong. Escreve sobre Asia central e Oriente Médio para as revistas Asia Times Online, Al Jazeera, The Nation e The Huffington Post.

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