As consequências geopolíticas do “Brexit” podem ser dramáticas. Para encará-las, esquerda deve lembrar que a UE nunca foi a “Europa dos Povos”

Por Pepe Escobar*

O historiador anglo-francês Robert Tombs observou que, quando europeus falam sobre história, referem-se ao Império Romano, à Renascença e ao Século das Luzes. Passam pelo Reino Unido como se nem existisse, de certo modo. Em troca, há britânicos que ainda veem a Europa como entidade da qual se deve guardar distância segura.

Acrescente-se ao problema que não se trata de uma “Europa de povos”. Bruxelas absolutamente detesta a opinião pública europeia, e o sistema mostra resistência férrea a qualquer reforma. Nesse projeto atual de União Europeia, que visa afinal a ser uma federação modelada segundo os EUA, o Reino Unido não se encaixa. Pode-se dizer que aí está uma das razões chaves por trás do Brexit – que por sua vez já desuniu o reino e pode eventualmente reduzi-lo a pequeno entreposto comercial na beirada da Europa.

Sem “povo europeu”, o sistema de Bruxelas só conseguiu articular-se como uma burocracia kafkiana, não eleita. Além do mais, os representantes dessa Europa sem povo em Bruxelas realmente defendem o que consideram que seja o interesse nacional deles, não o interesse ‘europeu’.

Mas Brexit não significa que o Reino Unido ficará livre do que dite a Comissão Europeia (CE). A CE sim, propõe a política, mas nada pode seguir adiante sem decisões do Parlamento Europeu e do Conselho de Ministros, que reúnem representantes de todos os governos eleitos dos estados membros.

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Muitas britânicos devem estar arrependidos por verem as lideranças que levaram à saída fora do turno e os problemas econômicos não resolvidos. O mundo real pé sempre mais lento na resolução dos problemas e difícil de aceitar (Foto: Divulgação)

Pode-se argumentar que um “Fica”, no melhor dos casos, teria levado a algum exame de consciência em Bruxelas, e a um sinal de alerta, que talvez se traduzisse em política monetária mais flexível; em impulso para conter os imigrantes atrás das fronteiras africanas; e mais abertura em direção à Rússia. O Reino Unido permaneceria numa Europa que daria mais peso a países fora da eurozona, e a Alemanha concentrar-se-ia nas 19 nações membros da eurozona.

O “Fica” teria levado o Reino Unido a aumentar o próprio peso político econômico em Bruxelas, e a Alemanha se abriria mais para algum crescimento moderado (em vez da ‘austeridade’). Mesmo que sempre se pudesse argumentar que o Reino Unido rejeitaria a noção de um futuro ministro do Tesouro da eurozona, de um FBI europeu e de um ministro europeu do Interior – de fato, toda a noção de uma completa união monetária e econômica.

O Reino Unido não perderá apenas o livre acesso ao mercado único europeu de 500 milhões de pessoas; terá de renegociar todos e cada um dos tratados comerciais com o resto do mundo, uma vez que todos eles foram negociados pela/na União Europeia. O ministro da Economia da França e aspirante à presidência Emmanuel Macron já alertou que “se o Reino Unido quer um tratado de acesso comercial ao mercado europeu, os britânicos têm de contribuir para o orçamento europeu, como fazem noruegueses e suíços. Se London não concorda com isso, nesse caso tem de ser saída total.” O Reino Unido ficará excluído do mercado único – para o qual vão mais de 50% de suas exportações –, a menos que pague quase tudo que paga atualmente. Além disso e sobretudo, Londres terá ainda assim de aceitar a liberdade de movimentos, tipo imigração europeia.

*Brasileiro, correspondente internacional desde 1985, morou em Paris, Los Angeles, Milão, Singapura, Bangkok e Hong Kong. Escreve sobre Asia central e Oriente Médio para as revistas Asia Times Online, Al Jazeera, The Nation e The Huffington Post.

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