A morte é um dos maiores tabus da sociedade ocidental contemporânea e por mais estranho que possa parecer, conhecer e debater o assunto torna a pessoa mais livre e autônoma para viver

Por Andrei Teixeira

Morrer é um tema de difícil discussão séria, pois se não envolve religião ou qualquer sistema de crenças, então fica preso a uma série de tabus, medos, preconceitos e lugares comuns.

No mundo ocidental contemporâneo, essa temática se torna ainda mais difícil quando a ciência permite que as pessoas vivam por muito mais tempo, com saúde, beleza e juventude ao alcance. A promoção que os mercados fazem, por meio do marketing, de diversos estilos de vida contribui para manter ativa na imaginação das pessoas a ideia de que elas podem ser jovens pelo tempo que lhes for desejado.

Consequentemente, todas as temáticas envoltas ao redor da morte, como a forma de sepultamento, as questões jurídicas do testamento, as questões sociais e políticas das estruturas de poder, os impactos ambientais gerados por um sepultamento mal preparado, entre outras coisas.

Tudo isso é postergado para a velhice, onde muitas vezes já existem tabus que impedem a livre conversa sobre o tema, ou onde pode não haver voz ativa para confrontar as ideias de filhos e parentes próximos…

 

 

Os impactos ambientais

Os cemitérios, como qualquer outra instalação que afeta as condições naturais do solo e das águas subterrâneas, são classificados como atividade com risco de contaminação ambiental. A razão disso é que o processo de decomposição de corpos libera metais (pesados ou não) que estão contidos no organismo humano. Vale lembrar que todo o ferro, o magnésio, o cálcio ou o sódio presente nos alimentos são mesmo metais como aqueles presentes nas rochas minerais, mas que nem sempre nos damos conta disso.

Há liberação inclusive de diferentes utensílios que acompanham o corpo e do caixão em que o corpo é sepultado.

O principal contaminante na decomposição dos corpos é um líquido conhecido como necrochorume, de aparência viscosa e coloração castanho-acinzentada. Essa substância contém, aproximadamente, 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substancias orgânicas degradáveis.

Em solos com alta umidade há um processo conhecido como saponificação pelo qual ocorre a quebra das gorduras corporais e a liberação de ácidos graxos. A alta acidez resultante do processo inibe a ação de bactérias putrefativas, retardando assim o mecanismo de decomposição do cadáver e tornando-o mais contaminante.

Urnas funerárias confeccionadas em madeira estão fora das fontes significativas de contaminação do solo, ao contrário do que ocorre com as metálicas. A menos que urnas de maneira possuam conservantes metálicos como o cromo, haverá uma rápida decomposição da madeira e isso antecipará o contato do corpo em decomposição com o solo. Caso haja conservantes, então o contato será retardado, mas haverá a liberação desses produtos no solo.

Caixões de metal impedem o contato do corpo, mas também podem provocar contaminação do solo por metais como ferro, cobre, chumbo e zinco. Outra fonte significativa de impactos contaminantes por caixões funerários é a prata, com frequência utilizada nas alças. Na decomposição ela é liberada no ambiente.

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Além dos metais convencionais, outro contaminante significativo é a radioatividade. Corpos que, antes da morte, ou mesmo depois dela, passaram por aparelhos com emissão de radiação podem estar contaminados e essa radioemissão também é liberada no solo.

Futuramente, opções muito menos prejudiciais ao solo, como os cemitérios verticais, serão comuns. No Brasil e no mundo existem vários exemplos. Além de necessitarem de uma área muito menor de solo (o que não significa impacto zero), essas edificações possuem processos limpos de cuidado com os corpos, cujos dejetos não são despejados ao solo.

A imagem de capa desta matéria e do Cemitério Vertical de Tarumã, em Curitiba.

 

cem santos
Construção iniciada em 1983, no bairro de Marapé, em Santos, o Memorial Necrópole Ecumênica está incluída no Guinness Book desde 1991, como o cemitério vertical mais alto do mundo (Foto: Divulgação) .

 

A política da morte

Morrer possui sim uma função social para a atual estrutura [capitalista] de poder: para os mais pobres, a reciclagem de mão de obra e a redução de custos por parte de pensões privadas ou governamentais para os mais pobres; e para os mais ricos, o engrandecimento e a criação de mitos na política e nas artes quando são realizados funerais abertos ao público ou a estipulação de feriados nacionais.

É política enquanto a vida dos súditos não influencia em nada o poder do soberano, diria Michel Foucaut num tratado sobre a morte como fator de biopolítica. É por isso que toda a guerra é um objeto da política: porque nela o sacrifício pelas origens (seja ela o sangue na Antiguidade ou a nação na Modernidade) deve trazer maiores retornos para seu grupo do que a própria vida. Parte de psicologia dos mártires e dos suicidas reside nessa questão, que não é exatamente o escopo dessa matéria, mas que já fica de convite para a reflexão.

É política quando a morte é necessária para tornar legítima uma política ou uma visão de mundo, a exemplo do extermínio nazista de judeus para manter o apoio das classes média e alta alemãs.

 

nazi
A propaganda nazista era atraente, chamava a atenção e ganhava o apoio de muitas pessoas (Foto: Divulgação)

 

Velar o corpo e enterrá-lo em um determinado formato, o enterro tradicional em caixotes de madeira e dentro de túmulos de cimento, também está envolto por estruturas de poder: aquelas religiosas que diz que o corpo deve ser “preservado” após o fim da vida, condenando a cremação ou qualquer fora de “destrato” com o corpo, mesmo que a alma seja o que mais interessa para estas crenças.

Quando não é feita nenhuma discussão sobre o velar e nenhuma propaganda vem de cima para baixo, é porque há o interesse de manter às escuras ou ao breu as atuais práticas. E ir atrás dessas informações ou tomar consciência da necessidade delas é algo difícil de fazer sozinho (embora não impossível). O fato é que isso também é política, e feita pelas elites. Na medida em que mídias alternativas tratam dessas informações, isso também é política, porque está sendo feito um esforço de disseminação de novas ideias e novas práticas que vão contra o status quo.

Por outro lado, morrer de maneira ambientalmente responsável também está repleto de conteúdo ideológico. Velar o corpo está altamente correlacionado com contexto social que se vive. É por isso, por exemplo, que pessoas mais ricas erguem pequenos (ou grandes) monumentos em cemitérios cujo aluguel das valas é maior. É por isso, também, que ultimamente têm surgido novas formas para lidar com o corpo que buscam reduzir os impactos acima descritos para o meio ambiente. Não apenas o solo é contaminado com o necrochorume e os metais, mas as águas subterrâneas idem.

A diferença é que é um conteúdo ideológico mais à esquerda, ou que se supõe alternativa de prática e de pensamento a tudo o que está por aí.

Por isso, pensar diferente sobre a morte e a velamento é, em alguma medida, sinônimo de liberdade.

Liberdade para morrer – Parte 2: Formas alternativas de sepultamento

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