Por Andrei Teixeira

O país cujas pessoas não se mantêm unidas em torno do ideal de desenvolvimento de todas as suas regiões é um país que está ameaçado ao não-desenvolvimento.

Essa parece uma frase muito forte, mas é a mais pura realidade do Brasil do século XXI.

Quando olhamos para a malha ferroviária norte-americana em meados do século XIX e a atual, percebe-se que aquele povo teve preocupação em integrar todo o continente (o centro e o oeste do país) àquela estrutura produtiva “pró-capitalista” na medida em que aquelas terras foram sendo ocupadas e a tecnologia das ferrovias foi ficando mais barata.

1800's
No começo era tudo muito restrito a uma parcela geográfica do continente, seja porque a tecnologia era recente, seja porque o oeste ainda não era ocupado, seja porque o país era dividido (Foto: Divulgação)

Até os anos 1860, ou seja, até a Guerra da Secessão, o país estava dividido em dois modelos produtivos: o agrário-exportador e colonialista e o industrial, voltado para os interesses da nação. Quando o segundo grupo de elite venceu o primeiro, o modo de produção capitalista entrou para valer naquela sociedade, que não pensou duas vezes em sair conquistando todo o meio-oeste, expulsando os indígenas e fazendo todo aquele bang-bang que cem anos depois começou a fazer sucesso no cinema.

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Os ianques revolucionaram o modo como integraram o país porque a elite vencedora da Guerra da Secessão soube criar um consenso, ainda que pouco democrático e bastante cruel para os indígenas, para a necessidade de integrar todo o território em torno de uma mesma ideia (Foto: Divulgação)

Trinta anos depois, os EUA já eram outro e com uma expansão para o Oeste que continua até hoje.

comparação

Podemos comparar a malha do Brasil com a de outros países, como a Rússia e a China. Embora esses países não sejam plenamente desenvolvidos, eles guardam junto com os EUA uma característica importante: são países mais autônomos em relação à média dos países do mundo.

O mapa norte-americano de meados do século XIX é muito parecido com o atual mapa brasileiro. Isso quer dizer atualmente, os capitais (produtivos e especulativos) se beneficiam muito mais das regiões Sul e Sudeste, já que ali a infraestrutura de comunicação e transporte são melhores. Os capitais procuram as melhores infraestruturas porque nesse ambiente podem se multiplicar mais rapidamente. Além disso, nessas regiões, a renda média das pessoas é maior e isso tem um impacto direto na demanda, que é maior em quantidade e é mais diversificada. Consequentemente, a oferta pode ser maior e a geração de lucro idem.

A reviravolta das arenas

2005
O Brasil sempre investiu pouco em ferrovias e quando o fez, priorizou regiões que sempre tiveram força política e econômica em detrimento de toda a nação (Foto: Divulgação)

Defender o livre mercado em um país que ainda está dividido significa defender a circulação de capitais somente nas regiões mais desenvolvidas. Alguns podem argumentar que a mão de obra é muito mais barata e isso seria uma força de atração das empresas, que gerariam emprego a curto prazo e um nível de renda maior no longo prazo.

Eles estão certos, mas seu raciocínio está incompleto: ao mesmo tempo que existe forças de atração, também existe forças que repelem as empresas, pois em regiões mais pobres, as pessoas costumam ter um baixo nível de educação menor e isso significa um abaixo nível de produtividade. Quando aliamos a isso os problemas de infraestrutura (que não são poucos), então é provável que várias empresas não migrem para o Norte e o Nordeste, não gerem empregos (de qualidade) a curto prazo e a renda não aumente consideravelmente a longo prazo.

Nordeste é a região certa para investir no Brasil

Defender o livre mercado em um pais que ainda está dividido significa defender os interesses de uma região do país em detrimento da outra. Isso pode aquecer conflitos existentes, pode fazer renascer revanchismos, criar ressentimentos e manter preconceitos ativos, como o preconceito ao nordestino.

O mais importante de tudo: esses conflitos não se restringem a nós daqui contra eles dali. Falarei da cidade de São Paulo porque moro por aqui. Qualquer paulistano que percebe coisas boas nas políticas do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do porto de Pecém, dos polos tecnológicos das capitais nordestinas, da transposição do Rio São Francisco, da criação da Zona Franca de Manaus, dos estádios no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e de quaisquer outras políticas de desenvolvimento daquelas regiões, são rapidamente taxados de simpatizantes do PT, são chamados de “petralhas”, são esquerdistas, são inocentes…

Já ouvi muita coisa sobre as políticas acima citadas, quando as pessoas dizem “que são assistencialistas”, “que o governo está dando migalhas”, “que elas nunca ajudarão de fato essas pessoas”, “que trocarão ajuda por voto” ou “que tem muita gente ganhando com isso”. Novamente, essas citações são verdade, mas estão incompletas.

Um Bolsa Família inicial sem condições de permanência precisa ser um ponto de partida para que as necessidades de curto prazo sejam atendidas. Ora, as pessoas precisam se alimentar com qualidade, ter acesso à saúde ou a uma educação digna e qualquer coisa que seja puramente assistencialista já é uma boa política para o curtíssimo prazo. O que deve acontecer é uma melhoria desses programas ao longo dos anos. O Bolsa Família, além de ser um programa barato, já obriga que os pais vacinem seus filhos e que eles frequentem o colégio. Se há problemas de fiscalização, esse deve ser o próximo passo para se atacar.

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O Bolsa Família ainda funciona como programa de ajuda imediada para muitas pessoas, mas já conta com algumas condicionalidades para que as pessoas não permaneçam dependentes do governo a longo prazo; ao menos essa é a ideia (Foto: Divulgação)

A ideia é que os programas de desenvolvimento sejam políticas que tornem os indivíduos mais autônomos no futuro, ou seja, que faça com que as pessoas queiram buscar empregos de qualidade, optem para que seus filhos concluam o Ensino Médio mesmo que haja dificuldades financeiras e qualquer coisa que parece muito óbvia dentro da sociedade paulistana.

A questão é que parecem óbvias, porque muitos de nós já nascemos em lares que nos deram condições para procurar um emprego, uma escola particular, um plano de saúde, etc. Por isso é preciso tomar cuidado quando saímos às ruas para protestar sobre algum conteúdo que nos parece absurdo, porque pode parecer absurdo para você, embora seja um conteúdo necessário para outras pessoas.

E ainda que seja mesmo absurdo -porque convenhamos, é preciso ser justo e apartidário para alguns temas que todos os partidos políticos acabam cometendo de errado e não aprendem, como a corrupção ou o distanciamento para com a população – é preciso ponderar as palavras usadas no protesto.

O Brasil não é os EUA da época da Guerra da Secessão, onde dois modos de produção distintos estavam em jogo. O Brasil de hoje é um país que está dividido entre a ideia de integrar novas regiões e fortalecer o país para o longo prazo e a ideia de manter privilégios para uma região que sempre a possuiu.

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As manifestação do pato são um ato democrático que expressa a vontade de parte da população que é representativa no Brasil, mas sua manifestação pode trazer políticas que ameacem as conquistas obtidas até aqui (Foto: Divulgação)

Outro ponto fundamental: o longo prazo não é algo como 5 ou 6 anos, é uma ou duas gerações. Assim, esses programas precisam permanecer ativos por muito tempo, devendo se tornar política de Estado. Por conta disso, precisam ser constantemente melhorados e desenhados para evoluírem no sentido de gerar menos dependência. Vamos colocar alguns nomes para facilitar a compreensão: primeiro, políticas obrigatórias de ajuda imediata; segundo, políticas obrigatórias de auxílio; e terceiro, políticas optativas de auxílio. Caso contrário, se manterão políticas de assistência que manterão as pessoas presas aos laços coronelistas que assolam algumas regiões do nosso país.

Em alguma medida, os mesmos laços da época da República Velha se mantêm cem anos depois. E foi na mesma República Velha que o desenvolvimento do país na verdade esteve restrita ao desenvolvimento do Sudeste. A malha ferroviária ficou restrita ao centro-sul, tal como a malha elétrica, o transporte fluvial e mais tarde o transporte rodoviário. Vargas tentou romper esse paradigma de uma sociedade dividida e realizou uma série de medidas para desenvolver o mercado interno brasileiro, ou seja, para fortalecer nossa economia e ficarmos menos dependentes dos países no Norte. Sabemos o que aconteceu com ele. Que os deuses o tenham…

O coronelismo foi uma instituição que bloqueou todo e qualquer tipo de repressão que pudesse aparecer na periferia do país contra o regime dos cafeicultores. No entanto, numa sociedade democrática, esses laços são mais frágeis e a capacidade de manifestação do Norte e do Nordeste é maior.

Não é à toa que recentemente alguns governadores do Norte e Nordeste e Dilma têm se alinhado para desenhar uma estratégia contra o impeachment, já que a região passa por um impulso de crescimento que há muito tempo não se via na História do Brasil. Que teve a oportunidade de viajar antes e recentemente para o Nordeste deve ter ficado impressionado, mesmo com algumas regiões mais afastadas da costa litorânea.

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Da esquerda para a direita, Tião Viana (Acre), Renan FIlho (Alagoas) e Wellington Dias discursando (Piauí) em apoio contra o impeachment e a possibilidade de golpe (Foto: Divulgação)

É por isso que dá para dizer que a abrangência da malha ferroviária do país pode ser uma aproximação para a força que a sociedade coberta por ela possui. O desenvolvimento econômico de todos veneficia a todos, mas até lá, é preciso que o governo esteja presente, mesmo que ele cause algumas distorções no meio do caminho, como ficou claro com Dilma I. Sem o governo, o ciclo vicioso da desigualdade se mantém.

E quando esse é rompido, faíscas vão surgir naturalmente, ainda mais em uma sociedade formalmente democrática.

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