Por Andrei Teixeira

Um belo sábado de manhã estava a passear e tomei um ônibus para realizar a primeira parte do meu deslocamento. No final da Av. Dr. Vital Brasil, localizada no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo, um trânsito tomou conta do nosso tempo e logo um grupo de viaturas chamou a atenção de algumas pessoas dentro do ônibus. Duas mulheres e um rapaz se mostraram indignados com a blitz que estava sendo feita.

“Tá essa porcaria de trânsito porque tem um bando de policial por aqui”, foi a frase pronunciada pelo rapaz, anotada num pedaço de papel porque muita coisa me veio na cabeça e porque à princípio fiquei indignado com a postura daquelas pessoas. Porém, passado aquele afunilamento e voltando o ônibus a seguir rapidamente viagem, eu relaxei e busquei compreender que aqueles resmungos se davam porque elas não puderam adquirir a compreensão de que as coisas da vida são complexas ATÉ AQUELE MOMENTO. E gostaria que isso ficasse claro, porque eu sou um otimista em relação à reflexão que as pessoas podem fazer consigo mesmas em algum momento de suas vidas.

complexidade
As coisas podem se excluir, se complementar ou nem uma coisa nem outra (Foto: Divulgação)

Ouço muitas pessoas reclamando tanto sobre a falta de segurança nas cidades, exigindo um melhor monitoramento e uma política menos corrupta, algumas colocam câmeras de segurança em suas casas e outras até defendem sua instalação em salas de aula. E o que aquele grupo de policiais estaria fazendo? Aparentemente (e muito convincentes) estariam trabalhando para garantir mais segurança nas ruas da cidade.

Sua ação, porém, causava um mal-estar no trânsito daquela avenida, dificultando a mobilidade das pessoas e atrasando qualquer um que tivesse um compromisso mais importante do que meu simples passeio. Mas então ficamos numa encruzilhada: desejar estar sem os policiais para haver mobilidade ou desejar segurança e abrir mão de uns minutinhos a mais?

Devemos perceber que se a blitz ocorria àquela hora, é porque algo deveria ter ocorrido naquele pedaço do dia e não daria para exigir aquele agrupamento de noite, por exemplo, onde a circulação de pessoas é menor. O que podemos exigir é que haja ais blitz durante os horários de menor circulação para prevenção, mas e se aconteceu algo naquela exata manhã? Então precisamos ter um senso de justiça para pensar que se ocorreu algo grave com um (a) concidadão, devemos abrir mão de um pouco de bem-estar próprio para ajudá-lo (a).

Na maioria dos casos, nunca vamos saber de fato o que está acontecendo, a não ser que sejamos participantes do problema. Isso quer dizer que muito do que falamos no dia-a-dia pode estar cheio de especulação e achismo e podemos acabar sendo injustos com alguém se não conhecemos a situação em todos os seus espectros. Por isso, caro leitor, é preciso tomar muito cuidado se quisermos nos intrometer em alguma história que aparece pra gente no cotidiano.

Com tudo isso, eu quero dizer que nenhuma dimensão da vida é pura. Elas se misturam, seja porque elas se complementam, porque são mútuas e andam paralelamente ou porque são rivais.

No exemplo que presenciei, a blitz a favor da segurança e a mobilidade pública, com o ônibus, rivalizam entre si. E não é difícil de buscar outros exemplos das outras relações: a lei seca (para evitar acidentes) e a mobilidade pública são mútuas, o andar de bicicleta (para diminuir o risco de acidentes entre carros) e os ônibus são complementares.

Podemos até buscar casos que envolvem outras dimensões da vida: o investimento no metrô e a geração de empregos são complementares nos quesitos mobilidade e economia; uma lei que libera o aborto trás um impacto positivo nas mulheres que não possuem condições de criar um filho (às vezes indesejado) no futuro, mas trás uma sensação ruim quanto aos grupos que se colocam contra a liberação, sendo rivais nos quesitos de igualdade de gênero e de tradição (ou a cultura) de um grupo de pessoas.

Portanto, tenhamos muito cuidado porque uma mesma ação impacta diferentes atores sociais de diferentes maneiras em diferentes sentidos. Isso precisa estar claro se quisermos uma sociedade de debates mais justos e respeitosos.

Mais de 2 milhões recebem benefícios de transporte em SP

Implicações políticas

Ser criterioso para discutir um assunto exige muita cautela, observação, experiência e respeito às diferenças. Ainda que o posicionamento de um indivíduo seja muito absurdo para a sua visão de mundo, é preciso ter paciência para re-educar essa pessoa segundo os moldes que você considera justo.

Não devemos jogar na mesma moeda, mas isso não quer dizer que não devemos usar a mesma linguagem que o outro. Na verdade, esse é o grande segredo de uma educação autônoma: se aproximar até o seu nível de conhecimento do seu ouvinte e usar dos mesmos caracteres que ele usa para que você consiga puxá-lo pelo braço para uma ideia que consideramos mais libertadora.

E ainda assim, nós podemos estar enganados caso a nossa ideia de mundo não seja muito boa. E talvez nunca vamos saber se ela é, até porque pessoas diferentes possuem valores diferentes e soluções às vezes conflitantes para o mesmo problema. Minha ideia aqui é que existe um tipo de posicionamento que podemos e devemos exercer, que é o da educação pela educação, sem interesses paralelos. Algo idealista para alguns, mas que considero necessária, transformadora da realidade e que precisa ser testada apesar de tudo.

Amor entre mulheres viraliza a web

Pensar de maneira crítica é essencial para nossas aspirações políticas de sociedade, tendo impactos diretos naqueles que vamos eleger para nos representar ou nas decisões que fazemos em um plebiscito, referendo ou coisa do tipo. Esse rigor também deve valer para os outros escalões: o trabalho, a família, os amigos, os (as) cônjuges e nós mesmos. Ou seja, pensar de maneira crítica é jogar com honestidade, com justiça, seja com os outros ou conosco mesmo.

Quando formos capazes de pensar de maneira crítica e/ou de ensinar a nossos filhos que a vida não é linear, ou seja, tem muitos lados da moeda, então a probabilidade de sermos enganados por apelos consumistas ou propagandas governamentais será menor, pois iremos perceber que algumas coisas que são passadas para nós são verdade ou fazem sentido, mas apenas até certo ponto. Logo, seremos e/ou nos sentiremos mais livres.

A liberdade substantiva de Sen

Amartya Sen nasceu em 1933 e é um economista indiano que no final do século XX avançou as discussões sobre desigualdade e pobreza. Definir quem é pobre não é uma tarefa fácil nem óbvia. O fato é que pobre é o indivíduo que carece de alguma coisa, só não sabemos de que.

Para a maior parte dos economistas, carecem de renda, para outros, de bens de consumo, para poucos, pobre é aquele que carece de oportunidades ou igualdade de condições, e assim por diante. Para Sen, pobre é aquele que carece de felicidade porque suas escolhas não são legítimas.

Educação não importa para o indivíduo, o que importa é acesso ao conhecimento.

Transporte não é o necessário, mas poder ter mobilidade no espaço onde vive.

Saúde não importa para ninguém, mas que seu corpo permita que ele faça o que tem vontade de fazer sem limitações.

Liberdade para morrer – Parte 1: Os impactos ambientais e a política

Segurança é o de menos, pois o mais importante é a sensação de estar seguro.

Como podemos observar, parece impressionante à primeira vista, mas quando falamos em educação, transporte, saúde e segurança, estamos tratando de bens de consumo, ou seja, um computador ou um livro, um carro ou uma bicicleta, vacinas ou contraceptivos e câmeras de segurança ou trancas nas portas.

Os bens de consumo são apenas os caminhos para que possamos ter o essencial à felicidade, que são as nossas sensações de bem-estar e satisfações. Dependendo das nossas condições sociais, temos mais possibilidades para escolher caminhos, então nossas escolhas serão mais legítimas do que aquelas referentes aos indivíduos que muitas vezes são forçados a fazer algo para garantir seu mínimo mensal.

Liberdade para morrer – Parte 2: Formas alternativas de sepultamento

Por exemplo, uma pessoa que mora no extremo da cidade e leva duas horas para chegar a seu trabalho carece de mobilidade e se ela não possui condições de adquirir um carro ou ir de bicicleta, nem há transporte público com boa acessibilidade, sua opção de ir de ônibus com essa duração de tempo não é uma escolha de facto. Então essa pessoa é menos feliz…

amartya-sen
Amartya Sen é um economista indiano e ganhador do Nobel por seus trabalhos sobre pobreza e desigualdade (Foto: Divulgação)

Trouxe essa discussão de Sen para ilustrar como as decisões de políticas públicas afetam o cotidiano das pessoas. Porém, as próprias decisões dos indivíduos afetam o ambiente ao seu redor, para o bem ou para o mal. Agora o link final: se não pudermos ser criteriosos com nossa realidade nem quisermos transformá-la, então vamos acabar perpetuando um sistema que mantém muitas pessoas presas à infelicidade. Continuarão sendo pobres.

Precisamos quebrar os tabus impregnados em nossos sentimentos.

Por cada vez mais mulheres na tecnologia

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.