Por Andrei Teixeira

“Econômico” e “financeiro” são dois adjetivos que parecem sinônimos, mas no fundo falam de coisas diferentes.

O primeiro deles se refere a várias dimensões da vida humana, como o social, o político, o cultural e/ou o ambiental, afinal, a Economia tem um impacto direto nesses campos do viver e vive-versa. Vale lembrar que o econômico é uma dessas dimensões…

Cuidar das finanças é como cuidar de uma planta: o zelo diário garante uma sobrevivência duradoura e saudável (Foto: Divulgação)

O segundo deles diz respeito a uma parte específica do campo da Economia, que é o lidar com o dinheiro, ou seja, como administrar um montante de recursos que você possui sem que ele se perca ou acabe, podendo deixar o administrador na mão.

Ambos têm importância no aprendizado da criança, cujo objetivo deve ser o de torná-la uma cidadã mais ativa, consciente e justa. Como consequência será uma pessoa mais autônoma, ou seja, mais livre e responsável, capaz de lidar com os grandes desafios da sociedade.

É preciso deixar claro desde já que Economia não é uma ciência simples (o que não quer dizer que seja difícil) e isso acontece porque assim como outras áreas do conhecimento, por exemplo, a Geografia e Biologia, a ciência econômica lida com problemas complexos, que são aqueles onde um corpo sempre vai produzir um impacto em outro, podendo ser um impacto positivo para um e negativo para o outro ao mesmo tempo.

Questões econômicas exigem a tomada de posição e, de maneira geral, deve estar a favor da população como um todo. Não devemos esquecer que Economia é uma ciência social aplicada e essencial para o desenvolvimento de um país.

Os problemas existentes podem ser do tipo macro (como a definição de uma taxa de juros por parte do Banco Central) ou micro (como a escolha da dona de casa em comprar X ou substitui-lo por Y). Em todos os casos, há que se fazer uma escolha.

A educação focada na complexidade e na escolha quebra amarras (Foto: Divulgação)

Quando formamos nossos jovens para assuntos de complexidade, que são aqueles os quais vão se deparar na vida adulta, e em temas que os obrigam a fazer escolhas, então estaremos formando pessoas mais críticas e que vão olhar para todos os lados antes de tomar uma ação e quando realiza-la deverá saber justificar-se com propriedade.

Uma das consequências práticas e positivas que poderemos ver será um maior cuidado com a propaganda, seja ela vinda de empresas privadas, seja ela vinda do governo.

Um breve parêntese: ser mais crítico não significa ser mais cético; significa apenas estar mais atento ao que acontece a nossa volta e que nos atinge e ser mais justo com aquilo que vamos fazer.

Com relação à educação financeira, saber cuidar das próprias contas é uma maneira de se proteger da falta de grana no final do mês, lidando com os recursos de maneira sustentável e equilibrada.

Significa em último caso, não estar dependente do dinheiro de empréstimos bancários ou de agiotas. Isso trás uma maior independência financeira e uma relativa tranquilidade em relação a esta dimensão da vida.

E isso não vale apenas para suas contas pessoais, mas para o dinheiro de uma firma ou empresa própria, ou para a educação do seu filho, sobrinho ou neto que você tanto ama, e assim por diante. Afinal, num mundo capitalista, o que impera nas relações interpessoais são duas coisas: a lei da confiança e a lei monetária.

Dessa forma, educar-se em Economia não significa que você apoia o sistema capitalista de produção, até porque há vertentes concorrentes entre si dentro dessa ciência. Educar-se em Economia significa, sobretudo, diminuir a probabilidade de não se tornar vítima do sistema!

Educação financeira já é parte da grade de alguns colégios

Aprender a mexer com o dinheiro desde pequeno pode tornar as escolhas mais equilibradas no futuro. De acordo com a pesquisa da Boa Vista SCPC, 88% dos brasileiros afirmam que a educação financeira na infância é fundamental.

Adotada há mais de dez anos em instituições particulares como parte das aulas de matemática ou projeto para a grade curricular, a educação financeira cumpre um grande papel para orientar os jovens a lidarem com as questões relacionadas ao dinheiro.

Não é uma necessidade atual a de se educar financeiramente; hoje, mais do que nunca, temos mais clareza dessa importância (Foto: Divulgação)

No Colégio Mary Ward, instituição localizada no bairro do Tatuapé, o projeto de educação financeira faz parte da grade curricular do 1º ano do Ensino Médio e é reforçado em matérias do 3° ano. AS aulas têm dois objetivos diferentes: o primeiro deles, voltado para o lado mais prático, é prepará-los de forma certeira para questões importantes do vestibular (até porque algumas questões envolvem conhecimentos de matemática financeira); e a segunda, para a vida, é orientar as questões pessoais relacionadas ao dinheiro, como por exemplo, a evitar o saldo negativo em conta no banco.

“Trabalhamos em sala sobre como estabelecer metas, organizar custos, praticar um orçamento e entender de juros e investimentos para que esse aluno possa ser orientado para o futuro de uma maneira saudável e responsável em relação ao dinheiro”, diz Patricia Bacarro, professora de educação financeira do Mary Ward.

O Zika é uma problema de economia

“Durante as aulas, os alunos conhecem as somas de valores de juros de cartões de crédito, compra de imóveis e carros, revisões de porcentagem e métodos para investir em poupança, por exemplo. Costumo levar faturas de cartão de crédito para que eles possam fazer as somas de diferentes valores em tempos de dívida”, explica Patricia. A educadora conta que as turmas são muito receptivas com o assunto e sempre levam casos sobre os cartões de créditos e imposto de renda dos pais.

No Colégio Pio XII, instituição localizada no bairro do Morumbi, o projeto de educação financeira é um curso a parte, com aulas ministradas para o 2º ano do Ensino Médio. “A principal meta é a conscientização do jovem frente ao mundo consumista”, diz a professora da disciplina no Colégio, Ana Maria Magri Andolfato.

A aula é semanal e faz parte da grade curricular do colégio desde 2006. Além de poupar, os alunos aprendem a guardar, administrar e fazer render o dinheiro. “99% dos alunos têm poupança. É preciso ensiná-los sobre como manter esse dinheiro”, pondera Ana Maria. A professora já percebe diferenças no comportamento de seus alunos. “Muitos economizaram dinheiro e reduziram gastos com balada, alimentação fora de casa e vestuário”, conclui.

Nesse momento de dita “crise econômica”, a possibilidade de mostrar aos mais jovens como é importante cuidar do dinheiro vem à luz. Até porque muitos de nós não passamos pelas dificuldades do país nos anos 1980. Somos “filhos do Plano Real”, ou seja, da estabilidade econômica e essa é a primeira crise que enfrentamos. Nunca fomos educados pela vida, então ao menos pelos colégios ou por nossos pais (porque ao menos experiência de vida eles têm) devemos ser preparados.

Finalizando, a educação econômica parece ser algo mais difícil de concretizar, primeiro por ser um assunto mais complexo e delicado para lidar com crianças, embora nem tanto para com adolescentes do Ensino Médio. E segundo e mais importante, porque exige uma interdisciplinaridade a qual muitos colégios e professores ainda não estão preparados.

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